Eu apenas estou vendado, despido, sentado em uma cadeira, e de mãos atadas. Eu poderia estar preocupado com essa situação, e incomodado com o frio nesse horizonte em frente ao mar. Mas esses são os menores dos meus problemas. Essa voz sussurrando em meu ouvido, oferecendo-me liberdade e os mais sórdidos prazeres que eu já pudera ter, que é assustadora. Por mais que eu esteja interpelado a tais desfrutes, devo reconsiderar que de minha visão eu necessito. Há anos que estou aqui, sobre a areia da praia, sempre na brisa forte. De manhã quente, e noite fria. Mas nada enxergo e nada faço. Algumas vezes as marolas alcançam meus pés, é de uma sensação arrepiadora em primeira instância, mas vai melhorando a cada ida e vinda dessa água do mar. Penso que aquele momento foi tão gratificante, que até me sinto satisfeito. Porém eu sei que poderia ter mais, e que o mais é o normal para os outros. Por isso eu venho a pensar: com esses anos de "exílio sensorial" eu aprendi a me acostumar, e ouso a dizer que até vivo bem. E o mais engraçado é que a única coisa que me deixa mal é a ideia de saber que essa minha "felicidade" ou vivência poderia ser bem melhor, alcançando uma variação exponencial. Então muitos me perguntam "Já que você sabe disso, por que você não abraça o mundo e aceita essa liberdade?", e a resposta é simples, eu apenas repito o que tinha dito e friso a palavra "poderia". É a simples insegurança de arriscar por não saber o que pode acontecer. Eu até arriscaria, mas essa é uma experiência que mudaria todos meus paradigmas, tornando essa minha situação em algo irreversível. E se por acaso essa liberdade não me fosse de agrado, eu simplesmente sentaria em minha cadeira, vesteria a venda e pediria a alguém que atasse minhas mãos novamente? Eu acho que não funcionaria, eu já teria conhecido as cores, já estaria corrompido por um outro mundo. Talvez eu até pudesse voltar, mas nada voltaria a mim. Logo, eu ficarei um pouco mais aqui, esperando que algum dia essa voz cálida me convença de que arriscar e aceitar as mudanças seja o melhor a ser feito.

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